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15 fevereiro 2017

Ritual da Menina-Moça e a luta da Nação Guajajara pela preservação da tradição secular

Ritual da Menina-Moça e a luta da Nação Guajajara pela preservação da tradição secular
Quatro horas da tarde na aldeia indígena Lagoa Quieta, município de Amarante, a 602 km de São Luís. O sol a pino lança seus raios sobre as copas das árvores que circundam um conglomerado de 20 casas de taipa cobertas de palha. No meio da aldeia avista-se uma espécie de oca, na qual estão confinadas seis meninas índias, entre 11 e 12 anos.
Dentro da oca reina total silêncio. Não há janelas, apenas uma pequena porta, por onde só podem passar as índias mais velhas. Não existem utensílio doméstico. Redes armadas nos caibros de juçareiras são levemente embaladas pelo vento que entra através das frestas deixadas pelas palhas que revestem as paredes.
As indiazinhas se mantêm o tempo todo em círculo e de cabeça baixa, como se estivessem em permanente estado de meditação.
Perto dali, em outro ponto da aldeia, cânticos em idioma tupi-guarani começam a ser entoados apenas por vozes masculinas.
Na estrada de terra batida que dá acesso à aldeia também está movimentada desde às primeiras horas da manhã quando iniciou-se o tráfego de caminhões trazendo em suas carrocerias e boleias dezenas de índios. Mulheres com crianças no colo, jovens e adolescentes descem carregando redes e sacolas e se arrancham nos barracões.
Fogos de artifício anunciam que neste dia haverá um grande evento. Cada comitiva de visitantes que chega é saudada com muita euforia pelos habitantes da aldeia.
Este é o cenário da Festa do Moqueado na aldeia Lagoa Quieta, também chamada de ‘Ritual da Menina-Moça’, tradição secular que vem sendo preservada pela nação indígena Guajajara, uma das maiores do Brasil. A maior parte dos guajajaras habita a reserva Arariboia, no Maranhão, abrangendo os municípios de Grajaú, Amarante e Santa Luzia,
O Ritual da Menina-Moça é realizado anualmente no mês de setembro. A festa reuniu na aldeia Lagoa Quieta cerca de 200 visitantes, entre índios de outras aldeias guajajara e também de outras tribos, como os Karipunas, do estado de Roraima.
Também contou com a presença de antropólogos, representantes da Funai, da Secretaria de Direitos Humanos e religiosos.

O Ritual da Menina Moça, também chamado de Festa do Moqueado, acontece quando a menina índia tem a sua primeira menstruação. Simboliza a transição entre a infância e a chegada à vida adulta. Após ser submetida ao ritual, a garota está apta a namorar, casar, gerar filhos e executar todos as atividades das mulheres adultas da tribo. 
A cabana construída de palha e caibros de juçareira, em formato circular, na qual as seis meninas estão confinadas, se chama ‘tamuio’ e foi construída pelos pais, tios, irmãos e avôs.
O ‘tamuio’, na crença indígena, simboliza o casulo onde a borboleta (menina-moça) permanece até completar a sua formação para a vida adulta. Após a primeira menstruação, as meninas-índias são confinadas nesta oca, na qual só é permitida a entrada das avós, mães, tias e irmãs mais velhas para os aconselhamentos e o preparo para o ritual que as transformará em mulheres.
No interior do tamuio, a índia Maria Santana Guajajara, considerada a matriarca da aldeia Lagoa Quieta, prepara a neta Rebeca para o ritual. “Essa festa é muito importante para as nossas meninas porque elas vão receber a proteção dos espíritos dos nossos ancestrais. Eles vão protegê-las de todo o mal”, explica.
Rebeca, 12 anos, tem um biotipo diferente das outras meninas-moças.  Sua pele é branca, os cabelos louros e os olhos claros. A mãe é guajajara e o pai não-índio. Para manter a tradição, a garota tem que passar pelo ritual. Enclausurada no tamuio, ela se mostra muito tranquila e afirma que faz questão de participar da festa. Rebeca diz que foi muito bem orientada pela mãe e a avó para a nova vida de mulher adulta na tribo.
O cântico em tupi-guarani, nas vozes masculinas, que começa a ser ouvido por toda a aldeia exatamente às quatro da tarde, é o momento em que as meninas-moças devem sair do ‘tamuio’ para a apresentação à tribo.
Durante o ritual as meninas trocam as vestes duas vezes, ajudadas pelas mães, tias e avós. No início usam uma saia longa na cor vermelha. Os seios, braços e costas ficam desnudos e são pintados com uma tinta azul escura feita do sumo do jenipapo, fruta nativa.
Uma espécie de véu cobre parte do rosto das garotas, que exibem no pescoço adornos de miçangas coloridas e sobre os ombros penas de cor branca.
Antes do término da festa, já ao amanhecer, as meninas precisam retornar ao ‘tamuio’ para trocar a saia vermelha por outra na cor branca. As penas brancas que foram coladas no seu corpo e nos adereços serão trocadas por outras na cor amarela, que simboliza o sol.
SAUDADAS COM CÂNTICOS E DANÇA  
Os cânticos masculinos se tornam mais altos na aldeia, acompanhados por tambores e maracás. São pais, avôs e tios que cantam e dançam em círculo, anunciando que é hora de as meninas-moças deixarem o confinamento para participar da festa.
Sempre em silêncio e de cabeça baixa, as indiazinhas saem do ‘tamuio’ protegidas pelas mães e avós, que também entoam cânticos, e seguem ao encontro dos pais, avôs e tios. Um círculo se forma em volta das garotas em uma dança que simboliza o abraço, o afago e a proteção dos ancestrais. Toda a tribo dança. Os visitantes também acompanham a coreografia dos guajajaras.
Dança e música se prolongaram por toda a noite até o amanhecer. Foram entoados mais de 40 cânticos em tupi-guarani, cujas letras falam de animais e dos personagens da natureza, como sol, lua, estrelas, rios e matas.
Durante a festa foi servida uma bebida à base de mandioca que manteve os índios acordados, cantando e dançando sem parar - homens, mulheres e crianças. 
Edivan Guajajara, compositor das músicas que foram entoadas durante o Ritual da Menina Moça, explica que todas as composições falam sobre a importância da preservação da natureza. “Se não há animais para caçar, rio para beber a água e as florestas para viver, nós índios vamos morrer”, afirma ele.    
O ritual da ‘Menina-Moça’ de Lagoa Quieta foi comandado pelo tamoio Guajajara, líder e pajé da aldeia, uma espécie de sacerdote, a mais alta patente da tribo. O tamoio é o mais velho da comunidade indígena, que tem a missão de preservar as tradições guajajara e ensinar aos mais novos todo o ritual.
Durante todo o decorrer da festa, o Tamoio Guajajara, que a comunidade afirma ter mais de 100 anos, foi revelando às garotas os conhecimentos dos ancestrais indígenas, na linguagem nativa que só eles entendem.

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